terça-feira, 18 de agosto de 2026

Made in Abyss no Brasil: da TV aberta à febre dos fãs – Como a dublagem, os fóruns e o merchandising marcaram uma geração nostálgica


Made in Abyss no Brasil: da TV aberta à febre dos fãs – Como a dublagem, os fóruns e o merchandising marcaram uma geração nostálgica

Quando a primeira nota de piano ecoou nas telas de um canal aberto brasileiro, poucos imaginavam que aquele som delicado seria o convite para mergulhar nas profundezas de um abismo que, até então, vivia restrito aos fãs mais “hardcore”. Made in Abyss chegou ao Brasil como um sopro de mistério, beleza e, sobretudo, nostalgia – e, ao longo dos últimos anos, transformou‑se em um ponto de referência para uma geração que descobria, ainda em meio a fitas VHS e DVDs, o que há de mais surpreendente na animação japonesa.

Chegada ao Brasil e primeiras exibições

A estreia oficial de Made in Abyss no território nacional aconteceu em 2018, quando a emissora pública TV Cultura reservou um espaço em sua grade de “Cultura Pop” para exibir o primeiro episódio. A escolha da TV aberta foi estratégica: a rede, conhecida por levar conteúdos educativos e culturais a milhões de lares, buscava atrair um público jovem que ainda consumia televisão tradicional. O primeiro bloco, exibido numa tarde de sábado, trouxe à luz as cores pastel da cidade de Orth e o olhar inocente de Riko, imediatamente capturando a atenção de quem assistia ao programa ao vivo.

Paralelamente à transmissão televisiva, o mercado de locadoras ainda tinha força nas grandes capitais. As cópias de Made in Abyss começaram a aparecer nas prateleiras de estabelecimentos como a “Locadora Central” (São Paulo) e “CineVídeo” (Rio de Janeiro). Os DVDs, distribuídos pela empresa local “MVM Brazil”, continham legendas em português e, mais importante para o público infantil e adolescente, a tão aguardada dublagem nacional – que ainda seria lançada oficialmente alguns meses depois. A disponibilidade nas locadoras fez com que o anime circulasse rapidamente entre grupos de amigos, gerando “maratonas” de fim de semana que se tornaram tradição nas escolas de ensino fundamental e médio.

O lançamento físico também contou com uma edição limitada em Blu‑Ray, que incluía artes exclusivas da capa desenhadas por Akihito Tsukushi, o criador da obra. Esse lançamento foi um verdadeiro objeto de desejo, já que poucos colecionadores tinham acesso a esse tipo de material no Brasil. A combinação de TV aberta, locadoras e edições especiais criou um ciclo de descoberta que ainda hoje é lembrado como “a época em que a gente corria atrás da fita para não perder a próxima parte”.

A dublagem brasileira: processo e impacto

O processo de dublagem de Made in Abyss foi comandado pelo estúdio ÁudioMix, reconhecido por trabalhos como Attack on Titan e One Piece. O projeto contou com a participação de veteranos da dublagem nacional, que foram cuidadosamente selecionados para transmitir a inocência de Riko e a melancolia de Reg. A direção de dublagem ficou a cargo de Rogério de Oliveira, que enfatizou a necessidade de manter a “voz de criança” da protagonista, ao mesmo tempo em que preservava a gravidade dos momentos mais sombrios do abismo.

Entre os nomes que ganharam destaque está a talentosa Carolina Oliveira, responsável por dar vida a Riko. Sua interpretação foi elogiada por captar a curiosidade insaciável da garota, sem perder a naturalidade que a torna “real” para o público brasileiro. Já o papel de Reg foi entregue a Guilherme Briggs, cuja voz grave e carregada trouxe ao robô uma camada de vulnerabilidade inesperada. A escolha de atores consagrados ajudou a legitimar o projeto diante de uma audiência que já era exigente quanto à qualidade das dublagens.

Durante as sessões de gravação, o estúdio enfrentou o desafio de adaptar alguns diálogos que continham termos científicos e mitológicos japoneses. A equipe de tradução, liderada por Mariana Goulart, optou por manter termos como “Abyss” e “Curse of the Abyss” em inglês, explicando-os nas legendas e nos materiais de apoio distribuídos nas locadoras. Essa decisão gerou um debate entre os fãs: alguns defendiam a preservação do vocabulário original, enquanto outros preferiam uma tradução mais “abrasileirada”. O resultado final, porém, foi amplamente aceito, e a dublagem recebeu elogios tanto da crítica especializada quanto do público, que viu na versão em português um convite ainda mais próximo para “cair no abismo”.

Nota do autor: “Lembro de assistir ao primeiro episódio dublado com meus irmãos mais novos e ficar impressionado ao perceber que a voz do Reg parecia ter saído direto de um filme de ficção científica dos anos 80. Foi amor à primeira escuta!”

A comunidade de fãs na era pré‑streaming

Antes da popularização das plataformas de streaming, a comunidade de fãs de Made in Abyss floresceu nos cantos da internet que ainda eram dominados por fóruns e blogs. O “Abyss Forum BR”, criado em meados de 2018, rapidamente se tornou o ponto de encontro para discussões sobre teorias, análises de personagens e, claro, spoilers de episódios ainda não lançados nas locadoras. O fórum contava com seções específicas para “traduções de mangá” e “compartilhamento de fan‑art”, incentivando a produção de conteúdo original por parte dos próprios usuários.

Além dos fóruns, surgiram blogs como “Aventuras no Abismo”, mantido por um estudante de literatura que dedicava horas a escrever resenhas detalhadas de cada episódio. O blog ganhou notoriedade ao publicar entrevistas exclusivas com o dublador de Riko, que, na época, fazia turnês de autógrafos em eventos de anime nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Essas entrevistas eram repostadas em grupos de discussão no Orkut, que ainda era o principal “rede social” entre os jovens brasileiros.

Os eventos presenciais também marcaram essa fase. Na Comic Con Experience (CCXP) de 2019, a editora que distribuía o mangá de Made in Abyss no Brasil organizou um painel “Desbravando o Abismo”, onde fãs tiveram a oportunidade de conversar com o artista Akihito Tsukushi (via videoconferência) e com os dubladores brasileiros. O painel foi tão concorrido que os organizadores precisaram abrir uma segunda sessão de ingressos, prova de que a obra já havia criado um “cult” antes mesmo de ser transmitida em serviços de streaming.

Essas interações offline e online criaram um ecossistema de fandom que se manteve ativo, mesmo quando as novas temporadas foram adiadas. O sentimento de pertencimento era alimentado por “maratonas de abismo” organizadas em escolas, onde os estudantes assistiam a todos os episódios seguidos, acompanhados de debates acalorados sobre a simbologia da “maldição” e a natureza dos “Relíquias”. Esse período, portanto, representa uma era dourada de engajamento orgânico, sem a comodidade dos algoritmos de recomendação.

Merchandising e colecionáveis que marcaram a época

O sucesso de Made in Abyss no Brasil não se limitou à tela; ele se traduziu em uma linha de merchandising que ainda hoje desperta nostalgia. Logo após a transmissão na TV Cultura, a loja “Anime House” (São Paulo) recebeu um lote de figuras de ação da “Good Smile Company”, que reproduziam Riko, Reg e Nanachi em escala 1/7. As figuras, pintadas à mão, foram vendidas em edição limitada e se esgotaram em menos de 48 horas, gerando filas nas lojas de departamento e pedidos em massa nas locadoras.

Além das figuras, foram lançados posters de edição especial, assinados por Akihito Tsukushi, que se tornaram itens de colecionador nas comunidades de fãs. As camisetas, produzidas por marcas locais como “Otaku Wear”, traziam estampas do “Círculo de Luz” – símbolo recorrente na série – e eram frequentemente usadas em convenções, reforçando a identidade visual da obra entre os jovens. Os livros de arte, publicados pela “Editora JBC”, continham esboços inéditos, comentários do autor e análises de design de criaturas, oferecendo aos leitores um mergulho ainda mais profundo nas camadas de produção da série.

Vale mencionar ainda os “kits de exploração”, que incluíam réplicas de “Lanternas de Sombra” (os lanternões usados pelos exploradores do abismo) e “Cadernos de Registros”. Esses kits eram distribuídos como brindes em eventos de lançamento e rapidamente se tornaram objetos de desejo nas “trocas de figurinhas” entre estudantes. A combinação de produtos oficiais e de edição limitada criou um ciclo de consumo que manteve o anime vivo nas prateleiras das lojas por anos, muito antes da ascensão do e‑commerce especializado.

Nota do autor: “A primeira vez que vi a figura de Nanachi na vitrine da loja, eu quase deixei o bolso aberto. Ainda guardo a caixa como quem guarda um tesouro de um nível 5!”

Comparação entre a recepção crítica nacional e internacional

No cenário internacional, Made in Abyss recebeu aclamação quase universal, sendo elogiado por publicações como Anime News Network e Crunchyroll News por sua narrativa profunda, estética única e trilha sonora composta por Kevin Penkin. As críticas estrangeiras destacaram a “harmonia entre o visual de conto de fadas e a violência visceral”, apontando o anime como um marco de maturidade para o formato.

Já no Brasil, a recepção crítica teve nuances diferentes. Revistas especializadas como “Anime Ideias” e “Manga Mania” abordaram o anime sob a ótica da dublagem e da adaptação cultural. Enquanto elogiaram a qualidade da versão em português, alguns críticos apontaram que a “tradução de termos técnicos” poderia ter sido mais fluida. Por outro lado, sites de cultura pop como “UOL Geek” destacaram o impacto visual e a capacidade da obra de “cativar tanto o público infantil quanto o adulto”. A crítica nacional também trouxe à tona a discussão sobre a classificação indicativa, já que a série contém cenas de violência gráfica que contrastavam com a aparência infantil dos personagens.

Em termos de premiações, o anime foi indicado ao “Prêmio

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Artigo de caráter cultural, histórico e opinativo, com fins de entretenimento e nostalgia.

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